Movimento de Cyberativismo - Fundação Abrinq - Fonte:
Site Fundação AbrinqOs casos de abuso sexual contra crianças e de redes de pedofilia que atuam em todo o país são cada vez mais frequentes nos noticiários. Em 2009, muitos já são os casos repercutidos na mídia: pedófilos de Catanduva, menina de 9 anos grávida do padrasto, menina de 11 anos grávida do pai adotivo. Só nesses primeiros meses do ano, já foram 4,7 mil registros no Disque 100, 31% deles relativos à violência sexual 35% à negligência e 34% a casos de violência física e psicológica.
Padrastos, pais, tios, avós, porteiros, caseiros, amigos da família, desconhecidos - o abusador não tem idade, profissão, classe social e religião pré-definidos, nem tampouco "cara", nesse triste e aterrorizante indicador nem as mulheres estão de fora.
A Fundação Abrinq acredita que a educação é um dos principais meios de prevenção ao abuso sexual infantil. Assim, atuamos por meio dos Pólos de Prevenção à violência doméstica e sexual, implantados em parceria com o Centro de Referência às Vítimas da Violência do Instituto Sedes Sapientae (CRVV), onde são realizadas oficinas de prevenção à violência doméstica e sexual nas comunidades.
Atualmente os Pólos estão implantados em 17 organizações sociais de atendimento à criança e ao adolescente, parceiros da Fundação e vêm apresentando muitos resultados positivos.
Conversamos com a psicóloga Dalka Chaves de Almeida Ferrari, coordenadora geral e de parcerias do CRVV, especialista em Violência Doméstica pelo Laboratório de Estudos da Criança (LACRI) da USP, organizadora e co-autora dos livros "O Fim do Silêncio na Violência Familiar", "O Fim da Omissão - A implantação de Pólos de Prevenção à Violência Doméstica" - editado pela Fundação Abrinq e do Manual "Reconstrução de Vidas" para saber como prevenir, como identificar o abuso sexual infantil, como tratar o assunto com a criança, quais as penalidades para o abusador, entre outros. Confira:
Na sua opinião, é certo dizer que houve um aumento na quantidade de casos de abuso sexual infantil atualmente?
Não, a problemática sempre existiu, os casos sempre foram em grande número, o que mudou foi o fato de que havia um "pacto de silêncio" que acobertava esta violência sexual, porém com a mídia e o disque-denúncia as notificações aumentaram. Mas, mesmo com as denúncias vindo à tona, trabalhamos apenas com a ponta do iceberg, pois somente 10% dos casos de violência são denunciados.
Há como identificar que uma criança sofreu abuso? De que modo?
O bebê tem alterações de comportamento, de estranhamento, de choro diante da figura do abusador, reações psicossomáticas como falta ou excesso de sono, alterações de apetite, aumento da inquietação ou depressão repentina.
Crianças que já atingiram a fase da linguagem contam histórias de abusos, muitas vezes em terceira pessoa, fazem desenhos, falam frases desconexas, gritam. Se ela é ouvida desde a primeira vez em que está fazendo esforço para contar um grande segredo ela se sente segura e conta tudo, se os adultos não percebem esse esforço, ela vai se retraindo.
Como prevenir que aconteça o abuso sexual contra crianças?
Por meio da educação é possível prevenir muitos dos casos, por meio de debates e oficinas com pais e profissionais que trabalham com crianças. Nas escolas, devia-se trabalhar com as crianças, por meio de oficinas de sensibilização e ambientes como o cantinho da dúvida, em que a criança sinta confiança. Se pensarmos em um âmbito maior, como o das políticas públicas, tais oficinas deveriam acontecer na escola e fora dela (clubes, parques etc).
Quais as consequências para uma criança abusada sexualmente?
Quanto maior a duração e a frequência do abuso e quanto mais próxima é a figura do abusador, mais difícil fica o processo de recuperação desta criança. A quebra da relação de confiança com o adulto protetor causa, muitas vezes, a perda da figura de referência, além do trauma, as crianças podem sofrer retração ou exacerbação em relação à sua sexualidade, problemas de auto-estima e personalidade.
Como tratar o assunto com a criança que sofreu o abuso?
Com terapias, psicoterapias, grupos de prevenção, trabalhos de arte e educação na escola. Ela precisa, principalmente, ter a compreensão de que não teve culpa.
Muitos especialistas dizem que é um círculo vicioso, que a criança abusada, pode muitas vezes ser um futuro "abusador". Você concorda?
Quando a criança/adolescente foi vítima do ponto de vista sexual e não passou por um tratamento psicoterápico, existe sim uma tendência a repetir o abuso, devido à identificação com este abusador.
Todavia, existem controvérsias sobre a compreensão do abusador, bem como sobre os encaminhamentos que devam ser feitos a ele. De modo geral, de acordo com a legislação vigente, o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes, no Brasil, engloba a violência, o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes (incluindo na exploração todo tipo de comércio - exploração sexual comercial, pornografia infanto-juvenil, turismo sexual, tráfico para fins de exploração sexual). A legislação brasileira, ao adotar a doutrina de proteção integral, descrita no ECA, procura responsabilizar todo indivíduo que abusa, vitimiza uma criança ou adolescente. Inclusive o abusador que é um pedófilo, ou seja, aquele abusador que manifesta uma compulsão sexual por crianças/adolescentes.
O pedófilo não consegue ter um auto-controle desta compulsão. Esta dificuldade, esta compulsão sexual por criança/adolescente classifica a pedofilia como uma doença do ponto de vista da psicologia e da psiquiatria.
No Brasil, a lei só prevê a responsabilização. Diante disso, por ser a pedofilia uma doença, como ela pode ser penalizada?
Na história da intervenção, nesses casos, temos exemplos de países onde só foi adotada a medida do tratamento, sem responsabilização legal, e a situação não se resolveu, pelo contrário, agravou-se. (Caso da Bélgica, em 2006, quando houve a detecção de uma grande rede de pedofilia). Nos países onde se procurou conjugar as duas medidas de intervenção: responsabilização legal e tratamento, a situação está mais sob controle, houve maiores avanços na capacidade tanto individual quanto social de contenção do fenômeno, como é o caso da Inglaterra e Estados Unidos.
No Brasil, qual poderá ser a melhor medida a ser adotada? A responsabilização legal? Só o tratamento? A responsabilização legal aliada ao encaminhamento para um tratamento psiquiátrico/psicológico?
Acho que este é um ótimo tema para ser discutido, definido na CPI que está investigando a violência sexual contra crianças/adolescentes. (denominada de forma imprecisa de CPI da Pedofilia).
É possível identificar um pedófilo? Existe um comportamento típico?
Como já foi dito acima, o comportamento mais típico de um pedófilo é a compulsão, ele necessita estar sempre próximo de crianças. Uma atitude em comum entre os pedófilos é a particularização das relações com crianças, uma insistência em manter amizades com elas. Quando a figura do abusador é alguém próximo ou está dentro de casa, muitas vezes é visível a ultrapassagem do limite de zelo para uma compulsão em perguntar detalhes, querer controlar o banho, a vestimenta, os passeios, os amigos, as fotos.